A música. Das artes, o grande
catalisador de sentimentos. Sentimentos que podem transitar do êxtase mais
sublime aos impulsos miseravelmente primitivos. Ao ouvir Rachmaninoff tenho
dificuldade em dimensionar o abismo, temo intransponível, que separa sua obra
de rara genialidade dos movimentos de acanhado esforço, cujos frutos ressentem
as limitações da via degenerada. Admito a irrelevância que assombra tais
comparações, até porque despreza os estados evolutivos que afetam o contínuo
refinamento dos sentidos e dos sentimentos, da técnica e do raciocínio. Mas, e
eis a questão que insiste nota, como não se constranger diante dos arremedos
que, disfarçados de arte, assomam por toda a parte quais pantomimas de remota
inteligência? Como se resignar ante manifestações burlescas onde demora a
humanidade no ancestral jogo das recompensas parasitas?
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terça-feira, novembro 01, 2011
domingo, fevereiro 20, 2011
domingo, outubro 10, 2010

A semelhança era evidente e disse para mim mesmo: eis aí o Papai Noel. Para a minha eterna surpresa, pois não me entrego fácil à perfunctória evidência, acolheu em sua candidatura a ilustre alcunha. Bem assim o reencontrava, agora a confirmar minha irreverente assertiva, em horário eleitoral tão exíguo para sua ínclita figura. Não foi eleito, se bem conquistou um número de eleitores que superava a expectativa mais otimista, contando votos que ultrapassavam mesmo aqueles mais experimentados ao pleito. Fiquei algo desapontado, confesso, pois nutria desejo íntimo de tê-lo meu representante; e quem melhor senão o próprio Papai Noel?!, lamentava incompreensivo. Pressenti, por fração absurda de instante, a infância que emergia com seus caprichos insólitos. Infância simples e desorientada, que confia a própria vida ao primeiro estranho que lhe aparece amistoso. Será este desconhecido a fortaleza que manterá o ser frágil e sem autonomia longe do perigo sorrateiro; quem proverá à inabilidade dos primeiros anos; ele, pai zeloso, cicerone pronto ao auxílio nas primeiras incursões pela noite inconsciente, e de quem por fim nos desvencilhamos ao raiar do dia. Mas antes que sobrevenham as indeclináveis injunções naturais, muito é feito para que o arquétipo benevolente e protetor nos impinja a nódoa indelével da dependência que, assombrada pelo temor do desamparo, dá causa ao comportamento imaturo e leviano. Então, seguem alguns habituados no excesso ou ressentidos da ausência, a reclamar a presença paterna agora difusa no universo restrito de suas realizações. Por conta disso, apenas suponho, elege-se não o administrador, mas o pai, ainda que menos apto ao governo, pois único capaz de atender às extravagâncias de uma sociedade que se revela imatura, qual a criança indefesa, isenta de responsabilidades por desconhecer as razões que motivam a própria existência. Talvez não por diversos motivos também se crê na personalidade quer-se tão humana, conquanto munida de atributos incríveis, que cuida de cada indivíduo como se pessoalmente, numa prática incessante e subversora de leis que precedem a raça humana. De qualquer modo, a solução parece mais uma vez pertencer ao tempo e sua fábrica de monstros e anjos. Até o Natal!
terça-feira, setembro 28, 2010
Sobre o belo
Mais um dia nublado, e mesmo sob o céu cinzento as pessoas contorcem a face, não sei se aborrecidas - agora não mais pelo sol abrasador, mas talvez pela chuva que ameaça -, ou se apenas expressam o hábito que o tempo modela e, por fim, confere imunidade à consciência.
De fato, elas não parecem andar, mas se arrastam com o corpo desajeitado a claudicar passos que nem longe distantes daqueles ensaiados na primeira infância. Essas pessoas esqueceram-se belas algum dia e agora se limitam a suportar a existência, carregando consigo o corpo em franca corrupção, rumo à degenerescência infalível. Onde a beleza? Onde o gesto delicado de quem se conhece, cônscio de suas limitações, se bem que ansioso por superá-las. Onde os olhos altivos de ambições ao benigno progresso?
Há tristeza em alguns, preocupação em muitos e nos que restam o olhar vago, volúvel, a que se costuma atribuir alegria.
Penso no belo, ainda que simples, radiante. Pois é tal estado ou vibração radiosa que denuncia a genuína beleza. Por mais feia que a criatura pareça aos olhos corrompidos pela miopia vulgar, aquela intimamente conciliada e, portanto, em harmonia consigo mesma, irradia algo de arrebatador aos experimentados na observação humana, surpreendendo-os confusos e extasiados diante do aparentemente insondável.
De fato, elas não parecem andar, mas se arrastam com o corpo desajeitado a claudicar passos que nem longe distantes daqueles ensaiados na primeira infância. Essas pessoas esqueceram-se belas algum dia e agora se limitam a suportar a existência, carregando consigo o corpo em franca corrupção, rumo à degenerescência infalível. Onde a beleza? Onde o gesto delicado de quem se conhece, cônscio de suas limitações, se bem que ansioso por superá-las. Onde os olhos altivos de ambições ao benigno progresso?
Há tristeza em alguns, preocupação em muitos e nos que restam o olhar vago, volúvel, a que se costuma atribuir alegria.
Penso no belo, ainda que simples, radiante. Pois é tal estado ou vibração radiosa que denuncia a genuína beleza. Por mais feia que a criatura pareça aos olhos corrompidos pela miopia vulgar, aquela intimamente conciliada e, portanto, em harmonia consigo mesma, irradia algo de arrebatador aos experimentados na observação humana, surpreendendo-os confusos e extasiados diante do aparentemente insondável.

segunda-feira, setembro 06, 2010
Às vezes, penso na humanidade. Penso nessa enorme família, distante, algo que muita vez imponderável, mas que está lá, aqui, em todo lugar, apesar da não rara indiferença. Às vezes, penso nas crianças que não podem, que não têm, enquanto por uma insignificante fração de tempo não estou pensando em mim e nos problemas que crio não sem alguma arte. Cansado de mim, às vezes, volto a atenção para ela, e com que surpresa me esqueço e me reencontro, já outro, não mais a remoer mesquinharias, porquanto parte de algo maior. Encontro, assim, a importância que me diz respeito no outro, sem o qual me converteria, após a egolatria desoladora, em nada. Penso, quando de mim esqueço, o que não tenho feito, o auxílio omitido, o horror que me grita ao ouvido, ajude-me!, ajude-me! E quase que lamento, não fossem as injunções do progresso que me alijam da condição de vítima, por um instante. Às vezes, dela sinto profunda e intensa saudade. Onde a humanidade da qual sou filho e irmão? E quase choro para finalmente esquecê-la. Quem sabe um dia... não a abrace?, não a conforte para a minha paz?, num gesto simples e silente.
terça-feira, outubro 27, 2009
Evolução e arteCurioso notar que as pessoas, se não bem conhecem com firmes convicções, ao menos suspeitam as artes refinadas e as práticas virtuosas. Nunca presenciei alguém pedir que retirasse o Bach executado em ambiente qualquer. Não diante de outros e se fazer revelar rude. As pessoas pressentem o que seja arte, percebem o poder arrebatador da grande arte e sua importância, ainda que de forma intuitiva. Também não há como escusar ignorância ante as informações veiculadas diuturnamente, nos mais diversos meios de comunicação e mídias que pretendem mesmo a interatividade. Pois, então, o que faz o homem paralisar, teimar na apreciação e envolvimento com manifestações rasas ou primitivas que ainda molestam a humanidade? A evolução não se opera em saltos, é de se compreender; ainda que se insista na manutenção, no repouso insensível ao progresso humano que caminha, queiram ou não, à depuração moral. É questão de tempo e paciência.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Profecia anacrônica
Templos são erigidos para arrebanhamento de “vítimas” adeptas à autopiedade, pretensamente protegidas na casa paterna, imunes às misérias que assediam os homens. Faz supor ingênua disposição à crença ancestral que professa o povo escolhido, uma degenerescência das faculdades intelectivas e morais, tributária da arrogância que ilude o mais simplório dos homens.
Templos são erigidos para arrebanhamento de “vítimas” adeptas à autopiedade, pretensamente protegidas na casa paterna, imunes às misérias que assediam os homens. Faz supor ingênua disposição à crença ancestral que professa o povo escolhido, uma degenerescência das faculdades intelectivas e morais, tributária da arrogância que ilude o mais simplório dos homens.
segunda-feira, outubro 22, 2007
Noite de sábado, uma hora da manhã, sentado a uma mesa com amigos em volta. Tudo ia muito bem na balada ordinária, quando fui acometido por um terrível e implacável lapso de lucidez. E, de repente, já não conseguia mais falar, já não ouvia meus amigos e mesmo a cerveja era intragável. Os olhos quiseram-se abertos, entre o susto e o novo que não anunciam aproximação. De repente, aquela gente toda havia se tornado uma grande massa opaca e sem graça. Ponderei sobre o cabimento de estar ali, a participar daquele quadro burlesco e enfadonho. Por um momento, repudiei, repudiei toda aquela fumaça lançada boca afora a lembrar sinistro ritual suicida de longo prazo. Repudiei aquele cheiro de álcool que exalava de corpos animados aos auspícios da flacidez cerebral. Então é assim, ficamos a semana inteira a esperar, ansiosos pela sexta-feira que precede, ora vejam, a nada! Foi quando me lembrei de Nietzche e de Schopenhauer: saí correndo ao banheiro, molhei bem o rosto e fui dançar ao som de um rockzinho sem-vergonha.
Dia seguinte, recaída. Fui assistir ao Tropa de Elite. “Cão quando não vem, manda cem!”, já se fala em minha terra. Não era pra agora, mas, enfim. Assisti.Finalmente! Finalmente, podemos conhecer outra versão dos fatos. Finalmente algo é mostrado além daquele velho discurso monódico e preguiçoso, para o que policial e bandido se digladiam dia e noite num país distante e fictício, mostrado à curiosidade mórbida e transigente da maioria. Já não nutria simpatias por maconheiro e seus derivados, e, assistindo ao filme, que Deus me perdoe, tive ímpetos de virar o incorruptível Capitão Nascimento e distribuir afabilidades a essa pobre gente incompreendida e carente que, no final das contas, é pena, não consegue encontrar nada melhor pra fazer. Catarse. Tomara possamos exportar heróis policiais, à maneira dos norte-americanos, quem sabe. Enlatados, hã. Por que não? Se bem que os gringos podem achar tudo isso muito miserável.
segunda-feira, outubro 08, 2007
Com certeza!Somos prisioneiros dos nossos sonhos. Vivemos, assim, o paradoxo segundo o que somos cativos de nossas próprias utopias. Ou, em outras palavras, não experimentamos a liberdade sem transcender. Se bem que essa aparente controvérsia (como toda controvérsia, aparente) cai por terra ao notarmos a fonte dos sonhos, a mente humana que de tão humana suspeita, sempre, algo além, algo fora, na inquietude do insatisfeito, do sonhador. O sonhador é um insatisfeito, pois, que se rebela contra a realidade imperfeita. Daí a única certeza, a realidade é precária e carece de reparos os quais não se conseguem senão no instante de uma idéia. A realidade não é auto-explicativa, a realidade é uma versão. É dessa versão que estamos irremediavelmente cativos. Entenda-se, no entanto, que tal versão das coisas é ato criativo que, por sua vez, é expressão da liberdade.
A certeza é a ignorância do futuro e o esquecimento do passado. É o grito do tolo, o silêncio do sábio. A certeza é a maior das ficções.
A certeza é a ignorância do futuro e o esquecimento do passado. É o grito do tolo, o silêncio do sábio. A certeza é a maior das ficções.
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