Comparar é ato arbitrário das faculdades da percepção munidas apenas de circunscrita ciência.
(...)
Contudo, ainda esta manhã, e me utilizando de tais supedâneos artificiosos que limitações intransponíveis ainda impõem, observava o gato, lembrando-me do cão.
terça-feira, agosto 30, 2011
Um desocupado, uma câmera e voilà: um vídeo para quem ainda não sabe o que é metalinguagem.
sábado, agosto 27, 2011
A Árvore da Vida
Avançava a primeira hora do dia quando saí do cinema. Todos em silêncio em minha volta, alguns choravam, outros apenas retiravam-se cautelosos como se o menor ruído fosse corromper a atmosfera impenetrável que pairava renitente. De fato, não pude evitar a comparação com Kubrick, se bem que o filme de Terrence Malick converte a arte cinematográfica em prece quase dolorosa, não fosse a infalível e redentora esperança. A prece dos que sofrem pelo aparente desamparo, pelo absurdo da vida e seu termo. Isso não é novidade, a velha ladainha dos incompreendidos pelo pai severo, remoto ou ausente, assim na terra como no céu; mas o que pensar vez diante dos fenômenos imponderáveis de uma natureza insensível às nossas admoestações? Natureza que nos precede e certamente sobreviverá à nossa brevíssima permanência. E eis aí a eloquente composição mediante a que Malick nos incita a pensar a própria existência sem, é claro, arriscar resposta. O próprio filme parece nos conduzir a lugar favorável a tais meditações, a um templo onde está inscrito “silêncio” em seu vestíbulo. Planos em close, cenários cuidadosamente limpos da inconveniente distração e Brahms, e Bach. Após a sessão, tomei o caminho de casa ainda impressionado, buscando no céu uma estrela cadente que arrematasse a noite, um sinal de esperança, talvez. Havia caído na armadilha? Como se já não fosse o bastante as leis universais que se auto-regulam e a tudo, o que mais exigiria de Deus? O privilégio? Um mimo? Sim, acho que ainda somos muito mimados.
quarta-feira, agosto 24, 2011
Hoje, tive notícias de Borges. Daqui da janela dessa pousada que luta já sem forças contra a decadência inexorável, vi sem poder crer a figura impressionante desviando-se de uma pequena banda que avançava pela ruela estreita. Sem esforço, não obstante a bengala que insistia consigo, atravessou a via de paralelepípedos para finalmente entrar na velha barbearia. Cumprimentou o barbeiro com breve aceno e se deixou numa cadeira próxima à porta. Mantinha um olhar distante, ainda que perscrutador pelo que calculo, e se não bem ciente daquela excepcional visão o julgaria à vontade, a retribuir com familiaridade a experiência nativa. Pensei em chamá-lo, gritá-lo o nome, talvez ter com ele na espelunca onde elegeu a espera inaudita. De repente, como se adivinhasse a intenção remota e inconveniente, ergueu-se lépido, saindo rua abaixo sem satisfações, quem sabe por se recordar de algo muito importante.
segunda-feira, agosto 22, 2011
O pensamento, sem dúvida, é o meu claustro preferido. Nenhum outro traz uma janela tão ampla e iluminada a que mesmo faria supor irrestrita liberdade, não fosse sua altura imponderável.
Fui assistir ao Tatyana, o novo espetáculo da Cia Deborah Colker de dança, no teatro Tobias Barreto, em Aracaju. Ver um espetáculo desses em uma pequena cidade nordestina, conquanto uma capital, traz junto uma sensação de algo insólito, efêmero, como se se fosse perder a qualquer momento. Dividido em dois atos, o espetáculo se pauta numa história de Pushkin, história de amor não correspondido, fadado, portanto, à tragédia. Presa à narrativa, a primeira parte parece não fluir bem, há mesmo algo de trivial de que a dança contemporânea já está cansada. Mas o segundo ato é outra história. Agora, sem as traquitanas ao estilo Deborah Colker, a atmosfera é de sonho. Rachmaninoff e corpos que finalmente cedem às inclinações mais profundas do espírito afeto à liberdade. Um sonho que, por genuíno, não estranha a confluência do passado e do presente, com feixes luminosos projetados em películas (espécies de filtros) que, por sua vez, remetiam as cenas a um passado remoto, qual daguerreótipo.
segunda-feira, agosto 08, 2011
quinta-feira, agosto 04, 2011
Esse é o mundo onírico da artista multimídia Miwa Matreyek que em suas performances interage com fantásticas animações. Ela esteve no Anima Mundi deste ano trazendo "Mito e Infraestrutura". Miss you Bjork!
terça-feira, agosto 02, 2011
Filósofos de que nunca ouvi falar (II)
Filho de um comerciante de frutas desidratadas e de uma jornalista redatora do L. A. Post de Minnesota, Jeremy R. Tenenbaum (1895-1972) desde cedo demonstrou interesse nos estudos religiosos e filosóficos. Contava com quinze anos quando escreveu, em um de seus muitos cadernos deixados à posteridade, acerca do que chamou ignorância divina. Segundo ele, o homem vive em demorado estado de aturdimento, pois, ao passo que intui sua origem transcendente, é incapaz de racionalizar a própria divindade ou a primeira “substância” inteligente. Dessa impotência advêm os mais diversos aspectos em que perfilam os orgulhosos e, por isso, ofendidos de sua própria ignorância, assumindo o tom cético e intolerante, como também aqueles calçados na preguiça ou ainda afetos ao embuste tirânico. Estes últimos, calculava Jeremy, eram maioria entre os que se diziam crentes e mesmo de difícil distinção.
terça-feira, julho 26, 2011
"Ah, sim... ouvíamos David Bowie enquanto estudávamos algumas bromeliáceas nos trópicos. Eram tempos incríveis aqueles." (W. S. Conrad, pesquisador do Cambridge University Botanic Garden,New Scientist, ed. 2812).
sexta-feira, julho 08, 2011
Meia-noite em Paris Woody Allen que já havia homenageado a literatura russa em seu divertido A Última Noite de Boris Grushenko, agora rende-se à cidade que abrigou e inspirou quem sabe a plêiade mais prolífica de artistas, num filme tão franco quanto adorável.
Ontem mais uma vez fui resgatado das ilusões que compõem, qual torvelinho irresistível, as experiências diárias. Mais uma vez o judeu franzino e inquieto me alertou dos sentidos que a alma esconde talvez ressentida pelo desprezo, pelo abandono. Fui ao cinema, se bem que dessa vez para me encontrar com a arte e não com o impostor entretenimento que não raro e valendo-se de engenhos artificiosos se faz passar por aquela. Um terço, pelo menos, das poltronas estava ocupado, número que não resistiu às razões de um filme que não pretendia a risada frouxa indicadora do transtorno histérico reprimido. Ouvi de alguns adolescentes que debandavam um resmungo algo decepcionado, afinal quem são esses? Quem é esse tal de Hemingway? Fitzgerald, quem? Que Cole Poter! Queremos o Harry! Harry! Não compreenderam. De tal modo não aproveitaram o delicioso passeio pela Paris dos anos 20, ou da Belle Époque de Lautrec. C`est la vie!
quarta-feira, julho 06, 2011
Canções para Warhol
Experiências cinematográficas realizadas por Andy Warhol com intervenções musicais de Dean Wareham e Britta Philips.
segunda-feira, junho 20, 2011
sábado, junho 18, 2011
Que no peito dos desafinados também bate um coração
Essa é "a banda mais bonita da cidade"; bonita sim, talvez não a mais afinada, mas o que importa? Vamos lá: o importante é ser feliz!
Mauricio Nahas, Paulo Mancini e Ricardo Barcellos expõem até 3 de julho, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, pormenores inspirados do cotidiano chinês (Beijing e Xangai), em fotografias que são exuberantes e autênticas narrativas da China atual. Na loja da Pinacoteca é possível adquirir um livro (R$ 100,00) com mais registros dos fotógrafos.
O filósofo
Todas as tardes, recolhia-se no pequeno escritório apinhado de livros dispostos à sorte do tempo já frouxo de zelo. Abria a janela e, sob a luz suave de uma primavera amena, sorria um sorriso livre de sentido, quase triste, ao reler aleatoriamente um trecho de o Ser e o Tempo. Todas as tardes, ao sussurro de remota sonata, sofria do nada evocado no acaso solitário e recorrente. Se bem que a angústia o encorajava, era a força e a razão para ser amanhã e amanhã, não obstante a morte intransponível porque certa. Bem assim, deixava-se absorto a ponderar um céu azul, e já fora de si experimentava o êxtase de não ser!
À noite, conquanto amena e primaveril, morreu sem o saber.
Todas as tardes, o Universo, saudoso, batia à sua janela, agora invariavelmente cerrada.
sexta-feira, abril 29, 2011
Entrenando mi español.
Buenos Aires, Argentina, 2011.
domingo, abril 03, 2011
Filósofos de que nunca ouvi falar (I)
Willian Getaway (1910-1996), filósofo inglês solipsista, considerou em um dos poucos escritos relegados à posteridade que “o homem é a dor a que si mesmo aflige.” Dor, haja o estado constante de incômodo por que se depaupera e de que apavorado foge. Aplicada a si mesmo e, portanto, imanente, pois não há como conceber algoz à vítima (a não ser pela vontade de se vitimizar) sem ignorar os princípios de harmonia e equilíbrio geridos por leis intransponíveis análogas às que descrevem o fenômeno físico mais elementar. Teísta, escreveu em seu monumental, mas pouco conhecido, A Metafísica do Ignorante, que quem ousa acreditar em Deus não pode fazê-lo sem, antes, conhecer-se a si mesmo, de tal modo “o crente ignorante de si jamais reconhecerá a Deus.” Mas entre Deus e o homem a morte se interpõe, ora qual senda incontornável, ora qual obstáculo invencível. Somente quem arrosta a morte, ou as razões últimas da própria existência, pode superar a angústia que assalta a humanidade ao longo da vida, e mesmo fazer cessar a cansativa fuga de si mesmo que o homem empreende ao longo do tempo. Tudo mais, segundo naturalmente conclui, é medo da morte e fuga absurda e cínica. Cercado de amigos e familiares, morreu na Sardenha sozinho e preocupado.