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quinta-feira, setembro 06, 2012


La cita
- Sí, me duele la espalda...
- Y toses a menudo?
- Solo cuando me duele la garganta.
- Te duele la garaganta, ahora?
- No... cof, cof, cof, cof, cof, cof, cof... ¡Sí, barbaridad!

sábado, junho 18, 2011

O filósofo
Todas as tardes, recolhia-se no pequeno escritório apinhado de livros dispostos à sorte do tempo já frouxo de zelo. Abria a janela e, sob a luz suave de uma primavera amena, sorria um sorriso livre de sentido, quase triste, ao reler aleatoriamente um trecho de o Ser e o Tempo. Todas as tardes, ao sussurro de remota sonata, sofria do nada evocado no acaso solitário e recorrente. Se bem que a angústia o encorajava, era a força e a razão para ser amanhã e amanhã, não obstante a morte intransponível porque certa. Bem assim, deixava-se absorto a ponderar um céu azul, e já fora de si experimentava o êxtase de não ser!
À noite, conquanto amena e primaveril, morreu sem o saber.
Todas as tardes, o Universo, saudoso, batia à sua janela, agora invariavelmente cerrada.

domingo, janeiro 09, 2011

Cauteloso, adiava o suicídio fumando, enquanto assistia ao programa dominical predileto.

domingo, janeiro 02, 2011

Um nostálgico lançou-se ao rio. Preso ao passado, afundou rapidamente.

sábado, outubro 02, 2010

O anencéfalo
Teria nascido há trinta anos, sob o céu estrelado de uma noite morna nos confins do Mato Grosso do Sul. Chegou em silêncio, sem o choro que certifica a vida, e não fosse os olhos já abertos e o fôlego regular o julgariam morto. Mais tarde, teria um médico diagnosticado ao discreto horror dos pais uma criança sem cérebro. Cresceu, não obstante a expectativa contrária e adepta à morte iminente. Disse sua primeira palavra aos quinze anos. “Peixe”, ouviu sua mãe atônita o sussurro milagroso. Dois anos passaram e começava a mencionar algo inteligível, se bem que embaçado de mistério. A partir dos vinte e dois anos, começou a proferir diagnósticos confusos, conquanto desconcertantes, pois, ao que parecia, era-lhe possível conhecer a intimidade alheia. Não demorou e sabia das linhas que compunham as plantas dos pés de quem se dispunha ante ao seu olhar neutro. Revelava com palavras cirúrgicas os males da alma que o corpo aparentemente sadio escondia. Predizia a sorte e o infortúnio, as promessas de vida plena, a morte inarredável e insidiosa. Multidões passaram a visitá-lo em busca da verdade dita sem arrodeios ou prevenções. Alguns o evitavam receosos, outros ao ouvir seu nome faziam sinal da cruz e arrematavam um “valei-me!”. Ao fim da tarde e já cansado de atender a tantas pessoas, concluía as atividades diárias com o pedido costumeiro, quando era finalmente conduzido em sua cadeira de rodas e deixado diante da TV. Um dia, sem querer justificar-se, mas como se a empreender rara cortesia, esclareceu-me de seu hábito vespertino e da necessidade de manter a cabeça vazia de coisa alguma. Morreria poucos anos depois, consumido por complicações cardíacas.

sábado, agosto 28, 2010

Recordo-me. Era talvez um sábado, pois me recordo da atmosfera indolente daquela tarde abafada. Costumava sair para encontrar os amigos, os poucos que se dispunham aos debates insólitos, afiançados em vestígios de uma filosofia ingênua, mas inquieta. Fui encontrá-lo em frente ao prédio onde eu morava, próximo a uma subestação de energia. Dentro de seu carro, M. esperava-me absorto em cogitações intransponíveis à superficial curiosidade. Tinha seus olhos marejados e, precipitando algo convencional, supus a autopiedade que segue às desilusões amorosas. Aspirante a poeta, de quando em vez, M. inventava interditos, conflitos emuladores da vida, dizia, com o que atormentava de incertezas a união mais promissora. Perguntei-lhe da indisfarçável comoção e ainda sob estranho êxtase, apontou para a torre monumental e bizarra que sustentava diversos e ruidosos cabos de alta tensão. Ele, para o meu espanto, havia encontrado beleza naquilo que, para mim, era abominável. Sim, a beleza é força arrebatadora e, talvez, transcendental à mera aparência tenazmente defendida por Hípias, mas que ora se conciliava com o ideal estéril e incorruptível que prevalece às circunstâncias. Por um instante, temi a cegueira que acomete a canalha, Deus me perdoe a arrogância juvenil, pois teimava insensível às perturbações elaboradas no íntimo de quem a identifica, a beleza imanente, conhecida do sábio, invisível ao tolo.
(A T.)

segunda-feira, outubro 12, 2009

O estranho
Lá está ele de braços estendidos e imóvel, tal qual o vi esta manhã. Acredito não tenha mexido um músculo até então, a despeito do sol implacável, o que é impressionante. Aparentemente não sente dor, é o que digo. Outro dia vi um ser consumido pelo fogo quando alvejado por um raio em meio à tempestade que principiava. Não ouvi queixa alguma, senão o crepitar do fogo que o tomou rapidamente, quando, enfim, tombou inerte sob fagulhas quais moscas incandescentes. Acha que exagero? Pois veja você mesmo. Observe: não parece se importar com coisa alguma, a esperar de braços abertos não sei se amistoso ou ameaçador. Hirto e sólido, conquanto o olhar suspenso numa insondável e desolada impressão. Estaria a deliberar o extraordinário? Fosse o olhar menos alheado o diria sorrateiro e até perigoso. Mas por desconhecer, fico com a cautela que de lá me inspira.

domingo, maio 04, 2008

Quando a viu pela primeira vez, pressentiu o inevitável: jamais a esqueceria. A música, agora distante, conduzia sua entrada qual a melhor cena do filme preferido, sempre disposta à atenção mais dedicada, posto tão próxima de perfeições. Preencheu, assim, todo o espaço de uma festa que não era pra ela, senão pelo fato de que, diante dos que ali estavam, resplandecia. Ao pressentir iminente perigo, ele fechou os olhos numa tentativa de fuga vã, diga-se, ao perceber finalmente que já a trazia indelével na idéia mais simples. Ela era uma música, era um filme, inefável e aparentemente real. Quis vê-la sorrir, dançar, discutir, dançar novamente, brigar, comer sucrilhos matinais, pagar contas no caixa eletrônico. Apavorado, saltou janela afora. No outro lado, ela o esperava.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Avant que j'oublie
Tudo começou com uma música. Era uma manhã fria e a vi atravessar a rua com decidida pressa. Também escutava seu mp3 e, a julgar pelo ritmo de seus passos, não descartei a possibilidade de compartilharmos a mesmo pós-punk, num desses eventos de ordinária coincidência. Parecia se incomodar com o vento gélido, comprimindo os olhos já pequenos. Fora isso, desfilava uma ausência imune ao solo sobre o qual pisava. O ônibus se aproximava enquanto corríamos em sua direção, em sincronia de ímpeto e esforço indene. Senti o perfume que surgia qual hálito denunciador de um zelo peculiar, diverso de tudo quanto já havia experimentado, posto o olfato era o de menos. Era um perfume que me conduzia a uma displicência dos sentidos, a ponto de perder o rumo, atônito e entorpecido. Pensava vê-la ao sentir o vento frio cuja direção era insinuada por seus cabelos indóceis – imaginei imerso em cogitações. No ônibus, era ela inteira e só. Aproximei-me e Deus sabe porque não lhe dirigi tolice alguma, imaginando qualquer indulgência de seus lábios entreabertos. Estava ao seu lado. O ônibus abafado e cheio era realidade remota, cujo tempo assombrava um fim. Deveria dizer-lhe algo, se ao menos pudesse oferecer o assento... Quis ouvi-la. Tirei meus headphones e me aproximei. Ela ouvia um samba.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Amambai, MS, 1987
Havia há muito, não falava mais com seu amigo imaginário. Não fosse os dias chuvosos, sequer o lembraria. Mas, quando a chuva, evocava, qual lembrança remota, sua presença silenciosa e cúmplice. Às vezes, inventava saudades e corria ao auto posto mais próximo para uma ducha rápida.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Seu gesto surpreendia porque em silêncio. Apesar dos cinco andares, percebeu-se ainda vivo e, batendo todo o pó que restava, correu ao primeiro ônibus. Era ainda muito otimista.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Deixava o Fórum não sem pressa, em mais uma sexta-feira de promessas infundadas. Livre! Corri para alcançar o carro estacionado a duas quadras. Muito barulho, muitos carros, muitos carros e o céu que ameaçava chuva iminente. Andava com pressa e à minha esquerda uma escola. Uma banda de fanfarra claudicava uma marchinha conhecida. Sinal verde, muitos carros, o carrilhão insistia longe. À minha esquerda, uma escola, um casal conversava, um relâmpago, o sinal vermelho. Vi uma garotinha junto ao casal. Ela me acompanhava com os olhos de interesse longínquo. A fanfarra havia cessado; com interesse também acompanhava sua curiosidade viva, natural. Segui caminho observado enquanto observava atento quase em transe. Sinal verde, sinal vermelho, deveria atravessar, acenei para ela. Ela acenou como se importasse e, já distante, sorri com toda minha infância.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Caso do chapéu
Havia 10 anos, Carlos era professor em uma escola localizada no bairro onde morava. Em ocasião de viagem, Carlos comprou um chapéu panamá com o qual, súbito, resolveu dar suas aulas. Estranharam. Colegas, os mais complacentes, insinuaram extravagância. Outros quiseram fosse algum desajuste patológico. Ao diretor, um insulto. Os alunos não acharam nada.

sábado, outubro 06, 2007

Misericórdia
Todos os golpes foram na cabeça. E como não respirava mais, atirei na cabeça. É preciso misericórdia.

sábado, novembro 04, 2006

Ângela
Onde há certeza a dúvida paira disfarçada de súbita alegria. Vi Ângela anoitecer ao meu lado e, por um instante, era muito certo que a amava.
O ar-condicionado do apartamento vizinho vencia o aparente silêncio. Era um som contínuo que suavizava o temor da solidão. Enquanto ali soasse, contínuo, saberia que, bem próximo, alguém jaz.
Ângela jamais me disse amar. Algum receio quis estar entre mim e ela, é verdade, Ângela não deixou. Sufocou-o com hálito de promessa etílica.
Ângela dorme tão bem que assusta. Como alguém pode dormir tão perfeitamente?! Sua respiração é de uma tranqüilidade imune à minha presença, agora, nula.
Deixo Ângela sozinha para que resplandeça. Ângela só, iluminada; nunca vi ninguém assim e agradeço aos céus por ser o último a amá-la.
Ângela, quase não a ouço.
O ar-condicionado ressoa imenso, embora a distância; e o vizinho será que nos ouve? Lembra-se dele, Ângela? Agora, não mais.
O silêncio da cidade gotejada de carros na avenida. Posso mesmo te escutar por dentro.
O silêncio é a morte, Ângela. Mas você está aqui, ao meu lado, e lá fora os carros... Não estamos sós, percebe?
Descanse em paz, meu amor.