sábado, agosto 28, 2010

Recordo-me. Era talvez um sábado, pois me recordo da atmosfera indolente daquela tarde abafada. Costumava sair para encontrar os amigos, os poucos que se dispunham aos debates insólitos, afiançados em vestígios de uma filosofia ingênua, mas inquieta. Fui encontrá-lo em frente ao prédio onde eu morava, próximo a uma subestação de energia. Dentro de seu carro, M. esperava-me absorto em cogitações intransponíveis à superficial curiosidade. Tinha seus olhos marejados e, precipitando algo convencional, supus a autopiedade que segue às desilusões amorosas. Aspirante a poeta, de quando em vez, M. inventava interditos, conflitos emuladores da vida, dizia, com o que atormentava de incertezas a união mais promissora. Perguntei-lhe da indisfarçável comoção e ainda sob estranho êxtase, apontou para a torre monumental e bizarra que sustentava diversos e ruidosos cabos de alta tensão. Ele, para o meu espanto, havia encontrado beleza naquilo que, para mim, era abominável. Sim, a beleza é força arrebatadora e, talvez, transcendental à mera aparência tenazmente defendida por Hípias, mas que ora se conciliava com o ideal estéril e incorruptível que prevalece às circunstâncias. Por um instante, temi a cegueira que acomete a canalha, Deus me perdoe a arrogância juvenil, pois teimava insensível às perturbações elaboradas no íntimo de quem a identifica, a beleza imanente, conhecida do sábio, invisível ao tolo.
(A T.)

segunda-feira, agosto 23, 2010


Cloud Gate Dance Theater, de 2 a 5/10, na Temporada 2010 de Dança do Teatro Alfa (SP)!

domingo, agosto 22, 2010

Cândida
Às vezes, tenho por mim em terra insólita, ilha incansavelmente assediada pelas vagas de um mar morto, profundo e inculto que, se não violento, assola por misterioso hábito o penedo mais seguro. Mais raramente, vê-se surgir um fanal, cuja poderosa luz direcionada para o alto parece nos conduzir o pensamento a peculiares virtudes. Segui aquela luz que por um instante resgatava-me da influência fastidiosa do burburinho secular e me deixei, fausto, em saudoso assento. Os personagens eram apresentados pela voz impostada de um empertigado jovem inglês, conforme se concluía pensar, a quem condescendia verdade em cada palavra, pois era naquilo que eu nutria fé, a despeito de um refletor que caiu diante do comentário afoito, treinado às custas da ilusória perfeição televisiva. Confesso, e sem algum pudor, que, até aquele momento, de Bernard Shaw só conhecia esparsas anotações biográficas, colhidas, aliás, em fontes de reputação duvidosa. Extasiado, presenciava, a cada fala articulada por aqueles atores notáveis, a perspicácia invulgar que sugere a verdade sem dela reclamar posse. Era o gênio, a mãe quem se utiliza da astúcia e de simulacros pueris para alimentar o filho rebelde. Assim, era nutrido, e dissecado com cada personagem, num jogo em que importa a maior quantidade de virtudes e defeitos identificados e, finalmente, assumidos; pois aí, e não por acaso, identificamo-nos com esse ou aquele autor, como a esse ou aquele terapeuta. Cheguei a pensar a platéia em descomunal divã, se bem que rindo, rindo muito, talvez, de si mesma.
Fui assistir à peça de que falei, de Bernard Shaw, adorei e até agora algo me comove, como se faz comover o ser humano que presencia a luminosa inteligência, não pela vã prepotência de si mesmo, mas por entender algo divino que se manifesta indubitável no outro. Desejei a tua presença ali, naquele teatro, ora rutilante por cada gesto confiado à memória, pelas palavras que surpreendiam incomum utilidade; como quis teu sorriso, talvez a tua satisfação de reencontrar a humanidade tão nossa, recolhida nos porões da indulgência diária, onde alimentamos uma paciência monstruosa.

domingo, agosto 15, 2010


Shakespeare: o mundo é um palco: uma biografia, Cia. das Letras, de Bill Bryson, é, antes, uma esforçada crônica da Inglaterra elisabetana que um tratado biográfico. O próprio autor em vários momentos parece se escusar pela empresa modesta, quando alega, por exemplo, a escassez de documentos que auxiliem a elucidação da vida do poeta. De tal modo, há um vasto número de curiosas observações de natureza histórica que, aliadas a outras tantas conjecturas, ajudam a tecer o contexto em que Shakespeare vivia, sem, contudo, desvendar sua intimidade.
Ficamos sabendo dos excessos a que eram submetidos os estudantes londrinos, que tinham que decorar as mais de 150 maneiras diferentes de se dizer “obrigado por sua carta”, em latim. Conhecemos as excêntricas golas picadilly, a dieta de pão preto e queijo seguida pela frugalidade inglesa do século XVII, ou, ainda, do bizarro clareamento de pele provocado pelo composto de enxofre e chumbo que as mulheres passavam no corpo como medida de embelezamento. Enfim, é mais um livro de cansativas especulações, como, aliás, qualquer outra obra que pretenda discorrer sobre a vida do bardo, quem parece haver, premeditadamente(!), cuidado de se preservar da posteridade implacável. Quem sabe...? Seja como for, ficamos com o melhor, e o que diz ao artista, sem dúvida, é sua arte.

Recomendações do sr. Iván Ivánitch à sra. Mária Pietróvna

Daria por ela o meu reino, o cavalo e 1/4 de meu fígado.

sexta-feira, agosto 13, 2010

Bill Evans (piano), Eddie Gomez (contrabaixo) e Alex Riel (bateria).

Quem já teve a oportunidade de assistir a performance de um conjunto jazzístico, talvez também haja observado a satisfação que parece fluir de cada músico que, nesse caso, deixa de lado a máscara austera das orquestras de ofício, para se dedicarem de alma a um prazer, ainda que tão intimamente sentido, contagiante.

Se a verdade é atributo da música, começaria a identificá-la no trio de jazz, por exemplo, pois que seu bom desempenho não prescinde da cumplicidade avessa à dissimulação comezinha.

Não se iludam os precipitados que torcem o bico à eventual audição do jazz, pois é música que não vai ao coração sem antes passar (e repassar) pelo cérebro.

domingo, agosto 08, 2010

Justificam alguns a inapetência pela leitura, arrimados no utilitarismo simplório, numa atitude estranha aos fins mais genuínos que a arte inspira, atinentes ao burilamento íntimo de quem a experimenta. Assim, negam-se a ler qualquer linha os cobiçosos de lucros intangíveis, servindo-se de medidas impraticáveis à aferição das virtudes conquistadas que não se confundem com os adornos ou as contingências.
A leitura é exercício que atende ao desejo, ainda que irrefletido, do conhecimento de si mesmo. Cada personagem elaborado pelo autor preferido é ser cujos aspectos são passíveis de identidade, de modo a expressar, dos gestos ao pensamento, características peculiares a cada leitor que se reconhece na personalidade ficcional. Assim, o hábito de ler, a que se dedica sem esforço o leitor contumaz, é exame silente de sua (do leitor) própria personalidade, decifrada ao longo do fluxo narrativo, o que projeta a leitura habitual do modesto contexto das atividades lúdicas ao excepcional universo dos recursos emuladores do progresso humano.
Porque, se as almas não morrem, é bom que em suas despedidas não haja ênfase.
(Jorge Luis Borges)

quarta-feira, agosto 04, 2010


Terra em Transe (1965) e o triunfo da beleza.
Em um filme, pouco importa a história, contanto quem a narre o faça sob os auspícios da melhor arte. Esta confiará ao artista comprometido os recessos da beleza, corolário do ato criador, cuja obra ignora o tempo, atravessando-o incólume, qual verdade imorredoura.
(Atentem para a atuação desconcertante de Paulo Autran, como o senador no auge do desvario, prestes à coroa [napoleônica?] que reluz as ambições de um poder impossível porque insaciável).
To be cotinue...

domingo, agosto 01, 2010


Eu me recordo de absolutamente tudo, jovem. É a minha maldição. É uma das maiores maldições infligidas ao homem: a memória. (Sr. Leland, melhor amigo de Charles Foster Kane).
Epílogo
Envelhecer é o recolhimento compulsório e paulatino das atividades corpóreas que cedem espaço à plenitude mental, processo pelo que o indivíduo é naturalmente conduzido à autoavaliação, daí as freqüentes digressões nostálgicas. À sorte do juízo que acompanha cada reminiscência, encontrar-se-á o velho em relativa serenidade, pois satisfeito de ricas experiências, ou em crescente aflição e deprimido, haja a repentina consciência do tempo negligenciado.
(Sobre o tema, assistam ao insular La Ventana [2008], de Carlos Sorín).

quarta-feira, julho 28, 2010

Stella
Já se foram alguns anos e hoje percebo o tempo que passa solene e indiferente às minhas urgências. Não mais o negligencio, não como outrora, de modo raciono as horas com os atalhos da experiência.
Ontem mesmo, fui à locadora, sim, ainda alugo filmes, e dentre estes me chegaram às mãos o anglo-australiano Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, e outro, agora francês, Stella, de Sylvie Verheyde. Detive-me por algum minuto e, servindo-me do mencionado critério de valorização do tempo, levei o último. Julguei a melhor escolha e, precipitando um veredicto que dispensa melhor avaliação, calculo insuperável. Stella é uma narrativa sobre descobertas, e aqui sob o prisma extraordinariamente lúcido de uma garota que, aos 11 anos, surpreende com a inteligência de si mesma. Ela se reconhece diferente dos outros – princípio para o autoconhecimento –, preferindo a distância vigilante ao movimento gregário primitivo que remonta das agremiações convencionais aos remotos coacervados. Não que eu acredite seja o homem destinado à solidão, absolutamente, porquanto a entenda qual estágio natural, por mais dorido, que precede a consciência, primeiramente de si, para só então integrar-se ao todo.
Mas voltando à história de descobertas que sempre envolvem escolhas, há algo que chamo a atenção quanto a estas, as escolhas que se impõem com maior ou menor força no curso da existência, e aqui, nas vidas de Stella, e de suas amigas, Gladys e Geneviève. Stella é quem, sem dúvida, experimenta as decisões que precedem as mudanças mais importantes. Filha de pais boêmios e vivendo em cima de um bar na periferia parisiense, tem a oportunidade de estudar em um liceu conceituado, onde faz amizade com Gladys, primeira aluna da classe, filha de intelectuais, leitora de Balzac e de Coqueteau. Gladys, como dizem os mais velhos, estaria de “vida ganha”, haja todos os recursos e circunstâncias favoráveis ao seu progresso. Diversamente, Geneviève, quem, não bastasse a sorte de pais alcoólatras e desempregados, de um irmão aleijado e outra retardada, sofre o anátema infligido pelo preconceito miserável e desumano dos moradores de seu pequeno vilarejo. Entre as duas, Stella a contemplar a glória e a derrota, conquanto ainda não influam em sua infância os juízos que elegem as conveniências ocas em detrimento à afinidade de coeur. E é com a celebração dessa afinidade, dessa sintonia expressa em amizade fiel, que o filme vai encerrando, numa cena de confessa nostalgia, à maneira das reminiscências fundamentais que o tempo tenta, mas não apaga.

segunda-feira, julho 26, 2010

Então, vendo a mulher que o fruto da árvore era bom para se comer, de agradável aspecto e mui apropriado para dar entendimento, tomou dele, comeu, e o apresentou ao seu marido, que comeu igualmente. (Gen 3, 6)
Timeo hominem unius libri
(São Tomás de Aquino)
Adão! Não sobe aí não!
(in Guillaume d`Angleterre)

domingo, julho 25, 2010


Dalí, o Salvador, também realizou experiências de moving portrait, recurso inédito à época, com o que fez registrar o lançamento para o alto, em sentidos diversos e ao mesmo tempo, de um texugo, de um orictéropo e de um babuíno (dócil?). A película perdeu-se num pequeno incêndio.

sábado, julho 24, 2010

O silêncio é a música cósmica que nos orienta os mais delicados sentidos, na busca das recônditas razões da existência.
Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, 1989.

- Uropigial, professora... uropigial fica na cloaca.
Acidente aéreo

Caiu que nem deu tempo...!
(Anwander Brites; autônomo, 28)

Negócio é no chão, aqui, que passarinho é que vôa.
(Crivaldo Watson de Abel; aposentado, 72)

Foi ziiiim, tactactac, catabruum! Feio mesmo.
(Helena Sandoval; estudante, 16)

sexta-feira, julho 23, 2010

Ontem, ao terminar uma leitura de Édipo Rei, talvez a obra mais conhecida de Sófocles (496 a C.-406 aC.), não pude me deter em pensar naqueles desmemoriados que se precipitam a eleger o passado como a melhor época, tempo imune aos problemas que hoje pululam e afligem o pior dos momentos. Parece algo natural a todas as pessoas, não só às que gozam de uma velhice corrompida pela degenerescência senil, mas o jovem diante da geração sucessora também se faz ressentir, e arrisca as mais levianas comparações. Esquecidos? Talvez sim, esquecidos de sua própria história, mas, principalmente, ignorantes dos percalços sofridos pela humanidade ao longo de sua trajetória (evolutiva), no decorrer de nem tão longínquos 100 mil anos. Vide Édipo, rei de Tebas, que ao descobrir o equívoco que o fez matar seu pai e desposar sua mãe, desesperou-se a ponto de aniquilar os próprios olhos, na esperança de não mais divisar o opróbrio terrível. História grave que, no entanto, não nos surpreenderia, hoje, em algum jornal ordinário na banca da esquina. E mais uma vez ouviríamos o velho resmungo saudosista de reverência a um passado recortado, uma metonímia de razões inventadas, pois a existência é mesmo uma invenção, não apenas individual, mas também coletiva. Enxergamos o que queremos, seja por esforço e pela busca do conhecimento que revela, seja pelo comodismo que se contenta com as ofertas triviais e condicionantes.
Quantos se fazem cegos, à cópia do rei tebano, para não arrostarem o horror da própria imagen! Quantos, cansados de si ou adivinhando o pior que o orgulho refuga, não fecham os olhos para a análise fecunda e habilitadora de seu “eu” mais íntimo, e por isso arredio, ao passo que preferem tatear na escuridão inconsciente os recantos macios do repouso imerecido.
A essa altura, a lembrança oportuna da parábola dos cegos, expressada com incomum fidelidade nas tintas de Brueghel, surge à maneira de profecia que, infalível, alcança o tempo naturalmente inclinado à fuga. O passado pertence a Édipo, ao incorrigível, e o presente aos dramas do agora. Entre este e aquele, pois, o barranco insidioso nos espera distraídos.


domingo, julho 18, 2010


Con pasión!
“Lembrar é ato que potencializa as faculdades ativas do intelecto”, pensei, não sem algumas recordações que tanto me compeliam ao encalço quanto se mostrassem arredias, a fugir da rede das percepções imediatas. Rede que ainda preservava as primeiras notas de um piano melancólico, seguido pelos olhos de Irene que acompanhavam entre desolados e esperançosos a partida Benjamín. A cena era um quadro tênue, cuja imagem vaporosa sublimava à impermanência, qual um sonho que o tempo esconde, mas evocado pelas razões que a vida exige. Lo Secreto de Sus Ojos, premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro, é mais uma pelicula do diretor argentino Juan José Campanella, quem mais uma vez faz ressaltar no ordinário as impressões de beleza que a arte empresta aos que a tem amizade. No drama, Ricardo Darín, que também trabalhou em outros filmes dirigidos por Campanella, é um funcionário público forense que, ao se aposentar, resolve escrever um romance, cujo mote envolve um crime abominável; se bem que apenas um pretexto para o reencontro consigo mesmo, outrora perdido nas furnas das recordações decantadas. E nessa busca que sempre descamba no autoconhecimento, Benjamín Espósito refaz os caminhos sinuosos da memória, ao longo dos quais revê, ou pela primeira vez experimenta, posto a lucidez que só o tempo revela, as misérias da ignorância humana, a redenção da sincera amizade e a gloria do amor correspondido. Excelente filme para quem sabe e se reconhece humano, ainda que, às vezes, esquecido de sua própria memória, mas sempre disposto à reconciliação de que a arte é especial mediadora.