Shakespeare: o mundo é um palco: uma biografia, Cia. das Letras, de Bill Bryson, é, antes, uma esforçada crônica da Inglaterra elisabetana que um tratado biográfico. O próprio autor em vários momentos parece se escusar pela empresa modesta, quando alega, por exemplo, a escassez de documentos que auxiliem a elucidação da vida do poeta. De tal modo, há um vasto número de curiosas observações de natureza histórica que, aliadas a outras tantas conjecturas, ajudam a tecer o contexto em que Shakespeare vivia, sem, contudo, desvendar sua intimidade.
Ficamos sabendo dos excessos a que eram submetidos os estudantes londrinos, que tinham que decorar as mais de 150 maneiras diferentes de se dizer “obrigado por sua carta”, em latim. Conhecemos as excêntricas golas picadilly, a dieta de pão preto e queijo seguida pela frugalidade inglesa do século XVII, ou, ainda, do bizarro clareamento de pele provocado pelo composto de enxofre e chumbo que as mulheres passavam no corpo como medida de embelezamento. Enfim, é mais um livro de cansativas especulações, como, aliás, qualquer outra obra que pretenda discorrer sobre a vida do bardo, quem parece haver, premeditadamente(!), cuidado de se preservar da posteridade implacável. Quem sabe...? Seja como for, ficamos com o melhor, e o que diz ao artista, sem dúvida, é sua arte.
domingo, agosto 15, 2010
sexta-feira, agosto 13, 2010
Bill Evans (piano), Eddie Gomez (contrabaixo) e Alex Riel (bateria).
Quem já teve a oportunidade de assistir a performance de um conjunto jazzístico, talvez também haja observado a satisfação que parece fluir de cada músico que, nesse caso, deixa de lado a máscara austera das orquestras de ofício, para se dedicarem de alma a um prazer, ainda que tão intimamente sentido, contagiante.
Se a verdade é atributo da música, começaria a identificá-la no trio de jazz, por exemplo, pois que seu bom desempenho não prescinde da cumplicidade avessa à dissimulação comezinha.
Não se iludam os precipitados que torcem o bico à eventual audição do jazz, pois é música que não vai ao coração sem antes passar (e repassar) pelo cérebro.
domingo, agosto 08, 2010
Justificam alguns a inapetência pela leitura, arrimados no utilitarismo simplório, numa atitude estranha aos fins mais genuínos que a arte inspira, atinentes ao burilamento íntimo de quem a experimenta. Assim, negam-se a ler qualquer linha os cobiçosos de lucros intangíveis, servindo-se de medidas impraticáveis à aferição das virtudes conquistadas que não se confundem com os adornos ou as contingências.A leitura é exercício que atende ao desejo, ainda que irrefletido, do conhecimento de si mesmo. Cada personagem elaborado pelo autor preferido é ser cujos aspectos são passíveis de identidade, de modo a expressar, dos gestos ao pensamento, características peculiares a cada leitor que se reconhece na personalidade ficcional. Assim, o hábito de ler, a que se dedica sem esforço o leitor contumaz, é exame silente de sua (do leitor) própria personalidade, decifrada ao longo do fluxo narrativo, o que projeta a leitura habitual do modesto contexto das atividades lúdicas ao excepcional universo dos recursos emuladores do progresso humano.
quarta-feira, agosto 04, 2010
Terra em Transe (1965) e o triunfo da beleza.
Em um filme, pouco importa a história, contanto quem a narre o faça sob os auspícios da melhor arte. Esta confiará ao artista comprometido os recessos da beleza, corolário do ato criador, cuja obra ignora o tempo, atravessando-o incólume, qual verdade imorredoura.
Em um filme, pouco importa a história, contanto quem a narre o faça sob os auspícios da melhor arte. Esta confiará ao artista comprometido os recessos da beleza, corolário do ato criador, cuja obra ignora o tempo, atravessando-o incólume, qual verdade imorredoura.
(Atentem para a atuação desconcertante de Paulo Autran, como o senador no auge do desvario, prestes à coroa [napoleônica?] que reluz as ambições de um poder impossível porque insaciável).
To be cotinue...
domingo, agosto 01, 2010
Epílogo
Envelhecer é o recolhimento compulsório e paulatino das atividades corpóreas que cedem espaço à plenitude mental, processo pelo que o indivíduo é naturalmente conduzido à autoavaliação, daí as freqüentes digressões nostálgicas. À sorte do juízo que acompanha cada reminiscência, encontrar-se-á o velho em relativa serenidade, pois satisfeito de ricas experiências, ou em crescente aflição e deprimido, haja a repentina consciência do tempo negligenciado.
(Sobre o tema, assistam ao insular La Ventana [2008], de Carlos Sorín).
quarta-feira, julho 28, 2010
Stella

Já se foram alguns anos e hoje percebo o tempo que passa solene e indiferente às minhas urgências. Não mais o negligencio, não como outrora, de modo raciono as horas com os atalhos da experiência.
Ontem mesmo, fui à locadora, sim, ainda alugo filmes, e dentre estes me chegaram às mãos o anglo-australiano Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, e outro, agora francês, Stella, de Sylvie Verheyde. Detive-me por algum minuto e, servindo-me do mencionado critério de valorização do tempo, levei o último. Julguei a melhor escolha e, precipitando um veredicto que dispensa melhor avaliação, calculo insuperável. Stella é uma narrativa sobre descobertas, e aqui sob o prisma extraordinariamente lúcido de uma garota que, aos 11 anos, surpreende com a inteligência de si mesma. Ela se reconhece diferente dos outros – princípio para o autoconhecimento –, preferindo a distância vigilante ao movimento gregário primitivo que remonta das agremiações convencionais aos remotos coacervados. Não que eu acredite seja o homem destinado à solidão, absolutamente, porquanto a entenda qual estágio natural, por mais dorido, que precede a consciência, primeiramente de si, para só então integrar-se ao todo.
Mas voltando à história de descobertas que sempre envolvem escolhas, há algo que chamo a atenção quanto a estas, as escolhas que se impõem com maior ou menor força no curso da existência, e aqui, nas vidas de Stella, e de suas amigas, Gladys e Geneviève. Stella é quem, sem dúvida, experimenta as decisões que precedem as mudanças mais importantes. Filha de pais boêmios e vivendo em cima de um bar na periferia parisiense, tem a oportunidade de estudar em um liceu conceituado, onde faz amizade com Gladys, primeira aluna da classe, filha de intelectuais, leitora de Balzac e de Coqueteau. Gladys, como dizem os mais velhos, estaria de “vida ganha”, haja todos os recursos e circunstâncias favoráveis ao seu progresso. Diversamente, Geneviève, quem, não bastasse a sorte de pais alcoólatras e desempregados, de um irmão aleijado e outra retardada, sofre o anátema infligido pelo preconceito miserável e desumano dos moradores de seu pequeno vilarejo. Entre as duas, Stella a contemplar a glória e a derrota, conquanto ainda não influam em sua infância os juízos que elegem as conveniências ocas em detrimento à afinidade de coeur. E é com a celebração dessa afinidade, dessa sintonia expressa em amizade fiel, que o filme vai encerrando, numa cena de confessa nostalgia, à maneira das reminiscências fundamentais que o tempo tenta, mas não apaga.
Ontem mesmo, fui à locadora, sim, ainda alugo filmes, e dentre estes me chegaram às mãos o anglo-australiano Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, e outro, agora francês, Stella, de Sylvie Verheyde. Detive-me por algum minuto e, servindo-me do mencionado critério de valorização do tempo, levei o último. Julguei a melhor escolha e, precipitando um veredicto que dispensa melhor avaliação, calculo insuperável. Stella é uma narrativa sobre descobertas, e aqui sob o prisma extraordinariamente lúcido de uma garota que, aos 11 anos, surpreende com a inteligência de si mesma. Ela se reconhece diferente dos outros – princípio para o autoconhecimento –, preferindo a distância vigilante ao movimento gregário primitivo que remonta das agremiações convencionais aos remotos coacervados. Não que eu acredite seja o homem destinado à solidão, absolutamente, porquanto a entenda qual estágio natural, por mais dorido, que precede a consciência, primeiramente de si, para só então integrar-se ao todo.
Mas voltando à história de descobertas que sempre envolvem escolhas, há algo que chamo a atenção quanto a estas, as escolhas que se impõem com maior ou menor força no curso da existência, e aqui, nas vidas de Stella, e de suas amigas, Gladys e Geneviève. Stella é quem, sem dúvida, experimenta as decisões que precedem as mudanças mais importantes. Filha de pais boêmios e vivendo em cima de um bar na periferia parisiense, tem a oportunidade de estudar em um liceu conceituado, onde faz amizade com Gladys, primeira aluna da classe, filha de intelectuais, leitora de Balzac e de Coqueteau. Gladys, como dizem os mais velhos, estaria de “vida ganha”, haja todos os recursos e circunstâncias favoráveis ao seu progresso. Diversamente, Geneviève, quem, não bastasse a sorte de pais alcoólatras e desempregados, de um irmão aleijado e outra retardada, sofre o anátema infligido pelo preconceito miserável e desumano dos moradores de seu pequeno vilarejo. Entre as duas, Stella a contemplar a glória e a derrota, conquanto ainda não influam em sua infância os juízos que elegem as conveniências ocas em detrimento à afinidade de coeur. E é com a celebração dessa afinidade, dessa sintonia expressa em amizade fiel, que o filme vai encerrando, numa cena de confessa nostalgia, à maneira das reminiscências fundamentais que o tempo tenta, mas não apaga.
segunda-feira, julho 26, 2010
Então, vendo a mulher que o fruto da árvore era bom para se comer, de agradável aspecto e mui apropriado para dar entendimento, tomou dele, comeu, e o apresentou ao seu marido, que comeu igualmente. (Gen 3, 6)
Timeo hominem unius libri
(São Tomás de Aquino)
Adão! Não sobe aí não!
(in Guillaume d`Angleterre)
domingo, julho 25, 2010
sábado, julho 24, 2010
sexta-feira, julho 23, 2010
Ontem, ao terminar uma leitura de Édipo Rei, talvez a obra mais conhecida de Sófocles (496 a C.-406 aC.), não pude me deter em pensar naqueles desmemoriados que se precipitam a eleger o passado como a melhor época, tempo imune aos problemas que hoje pululam e afligem o pior dos momentos. Parece algo natural a todas as pessoas, não só às que gozam de uma velhice corrompida pela degenerescência senil, mas o jovem diante da geração sucessora também se faz ressentir, e arrisca as mais levianas comparações. Esquecidos? Talvez sim, esquecidos de sua própria história, mas, principalmente, ignorantes dos percalços sofridos pela humanidade ao longo de sua trajetória (evolutiva), no decorrer de nem tão longínquos 100 mil anos. Vide Édipo, rei de Tebas, que ao descobrir o equívoco que o fez matar seu pai e desposar sua mãe, desesperou-se a ponto de aniquilar os próprios olhos, na esperança de não mais divisar o opróbrio terrível. História grave que, no entanto, não nos surpreenderia, hoje, em algum jornal ordinário na banca da esquina. E mais uma vez ouviríamos o velho resmungo saudosista de reverência a um passado recortado, uma metonímia de razões inventadas, pois a existência é mesmo uma invenção, não apenas individual, mas também coletiva. Enxergamos o que queremos, seja por esforço e pela busca do conhecimento que revela, seja pelo comodismo que se contenta com as ofertas triviais e condicionantes.
Quantos se fazem cegos, à cópia do rei tebano, para não arrostarem o horror da própria imagen! Quantos, cansados de si ou adivinhando o pior que o orgulho refuga, não fecham os olhos para a análise fecunda e habilitadora de seu “eu” mais íntimo, e por isso arredio, ao passo que preferem tatear na escuridão inconsciente os recantos macios do repouso imerecido.
A essa altura, a lembrança oportuna da parábola dos cegos, expressada com incomum fidelidade nas tintas de Brueghel, surge à maneira de profecia que, infalível, alcança o tempo naturalmente inclinado à fuga. O passado pertence a Édipo, ao incorrigível, e o presente aos dramas do agora. Entre este e aquele, pois, o barranco insidioso nos espera distraídos.
domingo, julho 18, 2010

Con pasión!
“Lembrar é ato que potencializa as faculdades ativas do intelecto”, pensei, não sem algumas recordações que tanto me compeliam ao encalço quanto se mostrassem arredias, a fugir da rede das percepções imediatas. Rede que ainda preservava as primeiras notas de um piano melancólico, seguido pelos olhos de Irene que acompanhavam entre desolados e esperançosos a partida Benjamín. A cena era um quadro tênue, cuja imagem vaporosa sublimava à impermanência, qual um sonho que o tempo esconde, mas evocado pelas razões que a vida exige. Lo Secreto de Sus Ojos, premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro, é mais uma pelicula do diretor argentino Juan José Campanella, quem mais uma vez faz ressaltar no ordinário as impressões de beleza que a arte empresta aos que a tem amizade. No drama, Ricardo Darín, que também trabalhou em outros filmes dirigidos por Campanella, é um funcionário público forense que, ao se aposentar, resolve escrever um romance, cujo mote envolve um crime abominável; se bem que apenas um pretexto para o reencontro consigo mesmo, outrora perdido nas furnas das recordações decantadas. E nessa busca que sempre descamba no autoconhecimento, Benjamín Espósito refaz os caminhos sinuosos da memória, ao longo dos quais revê, ou pela primeira vez experimenta, posto a lucidez que só o tempo revela, as misérias da ignorância humana, a redenção da sincera amizade e a gloria do amor correspondido. Excelente filme para quem sabe e se reconhece humano, ainda que, às vezes, esquecido de sua própria memória, mas sempre disposto à reconciliação de que a arte é especial mediadora.
terça-feira, outubro 27, 2009
Evolução e arteCurioso notar que as pessoas, se não bem conhecem com firmes convicções, ao menos suspeitam as artes refinadas e as práticas virtuosas. Nunca presenciei alguém pedir que retirasse o Bach executado em ambiente qualquer. Não diante de outros e se fazer revelar rude. As pessoas pressentem o que seja arte, percebem o poder arrebatador da grande arte e sua importância, ainda que de forma intuitiva. Também não há como escusar ignorância ante as informações veiculadas diuturnamente, nos mais diversos meios de comunicação e mídias que pretendem mesmo a interatividade. Pois, então, o que faz o homem paralisar, teimar na apreciação e envolvimento com manifestações rasas ou primitivas que ainda molestam a humanidade? A evolução não se opera em saltos, é de se compreender; ainda que se insista na manutenção, no repouso insensível ao progresso humano que caminha, queiram ou não, à depuração moral. É questão de tempo e paciência.
segunda-feira, outubro 12, 2009
O estranhoLá está ele de braços estendidos e imóvel, tal qual o vi esta manhã. Acredito não tenha mexido um músculo até então, a despeito do sol implacável, o que é impressionante. Aparentemente não sente dor, é o que digo. Outro dia vi um ser consumido pelo fogo quando alvejado por um raio em meio à tempestade que principiava. Não ouvi queixa alguma, senão o crepitar do fogo que o tomou rapidamente, quando, enfim, tombou inerte sob fagulhas quais moscas incandescentes. Acha que exagero? Pois veja você mesmo. Observe: não parece se importar com coisa alguma, a esperar de braços abertos não sei se amistoso ou ameaçador. Hirto e sólido, conquanto o olhar suspenso numa insondável e desolada impressão. Estaria a deliberar o extraordinário? Fosse o olhar menos alheado o diria sorrateiro e até perigoso. Mas por desconhecer, fico com a cautela que de lá me inspira.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Profecia anacrônica
Templos são erigidos para arrebanhamento de “vítimas” adeptas à autopiedade, pretensamente protegidas na casa paterna, imunes às misérias que assediam os homens. Faz supor ingênua disposição à crença ancestral que professa o povo escolhido, uma degenerescência das faculdades intelectivas e morais, tributária da arrogância que ilude o mais simplório dos homens.
Templos são erigidos para arrebanhamento de “vítimas” adeptas à autopiedade, pretensamente protegidas na casa paterna, imunes às misérias que assediam os homens. Faz supor ingênua disposição à crença ancestral que professa o povo escolhido, uma degenerescência das faculdades intelectivas e morais, tributária da arrogância que ilude o mais simplório dos homens.
domingo, janeiro 18, 2009
Retorno, enfim, à aridez do centro-oeste brasileiro, sítio de atmosfera sensivelmente mais densa que o litoral, quase sempre fuliginosa, livre de umidade, a nos irritar os olhos e a nos fazer partir os lábios num sorriso doloroso. Do tópico ao atópico como diria Bachelard, mas quem sou eu para me opor, vez livre e diante do universo de experiências e oportunidades peculiares. E se aqui nada me falta, não fosse o mar e as práticas de espontânea cordialidade, impossíveis à abstração! Todavia, eis também aqui grande ensejo à desintegração do “lugar”, do leito natal ao que nos vinculamos afetivamente à guisa de norte ou reserva energética. Eis que fora não pertenço a outro local senão à lembrança mais e mais remota, que se confunde com a própria existência. O lugar, assim, instala-se sutilmente nos recônditos da memória que nos habita, de modo a sermos, nós exilados, nosso próprio lar, alheios às raízes topográficas e cada vez mais próximos de uma pátria universal.
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