sábado, fevereiro 19, 2011
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
sábado, janeiro 29, 2011
quinta-feira, janeiro 27, 2011
segunda-feira, janeiro 24, 2011
domingo, janeiro 23, 2011
sexta-feira, janeiro 21, 2011
quinta-feira, janeiro 20, 2011
sábado, janeiro 15, 2011
Naquele inverno, houve relatos nos jornais de um iceberg do tamanho de um galeão flutuando num ranger majestoso pelos penhascos de St. Hauda’s Land, de um porco que fungava levando andarilhos perdidos dos morros para o precipício abaixo de Lomdendol Tor, de um espantado ornitologista contando cinco corvos albinos numa revoada de duzentos. Mas Midas Crook não lia os jornais, apenas olhava as fotografias.
domingo, janeiro 09, 2011
segunda-feira, janeiro 03, 2011
sexta-feira, dezembro 31, 2010

domingo, novembro 21, 2010
Semana passada, assisti ao espetáculo Lanternas Vermelhas, do magnífico Balé Nacional da China, o que me fez tomar algumas decisões. Uma delas, única a que dedicarei comentário aqui, diz respeito aos eventos amadores. Não os assistirei mais, pelo menos àqueles produzidos e executados por companhias que se autointitulam amadoras. Não, isso é preguiça disfarçada de honestidade, de tal modo a transigência deve ter limite se se deseja o franco progresso ao mundo. O amadorismo é estado transitório, que precede o pleno domínio da técnica e da compreensão da arte, o que só o estudo devotado e o indispensável talento podem garantir. Pensar em atividade amadora e indiferente ao aprimoramento necessário à manifestação das potências inesgotáveis da arte, da grande arte, seria um retrocesso aos arcanos de ritos ancestrais, assombrados pela ingerência estéril que se satisfaz com a mera reprodução estagnada. O destino da arte está com a função que a legitima qual adjutório ao refinamento humano e é imperioso que cada um auxilie no seu aperfeiçoamento, caso contrário, penso, legaremos às gerações futuras o convívio lastimável com práticas assustadoramente primitivas que nos detêm na precariedade animal.
quinta-feira, novembro 11, 2010
sábado, novembro 06, 2010
quinta-feira, outubro 28, 2010
domingo, outubro 24, 2010
domingo, outubro 10, 2010

sábado, outubro 02, 2010
Teria nascido há trinta anos, sob o céu estrelado de uma noite morna nos confins do Mato Grosso do Sul. Chegou em silêncio, sem o choro que certifica a vida, e não fosse os olhos já abertos e o fôlego regular o julgariam morto. Mais tarde, teria um médico diagnosticado ao discreto horror dos pais uma criança sem cérebro. Cresceu, não obstante a expectativa contrária e adepta à morte iminente. Disse sua primeira palavra aos quinze anos. “Peixe”, ouviu sua mãe atônita o sussurro milagroso. Dois anos passaram e começava a mencionar algo inteligível, se bem que embaçado de mistério. A partir dos vinte e dois anos, começou a proferir diagnósticos confusos, conquanto desconcertantes, pois, ao que parecia, era-lhe possível conhecer a intimidade alheia. Não demorou e sabia das linhas que compunham as plantas dos pés de quem se dispunha ante ao seu olhar neutro. Revelava com palavras cirúrgicas os males da alma que o corpo aparentemente sadio escondia. Predizia a sorte e o infortúnio, as promessas de vida plena, a morte inarredável e insidiosa. Multidões passaram a visitá-lo em busca da verdade dita sem arrodeios ou prevenções. Alguns o evitavam receosos, outros ao ouvir seu nome faziam sinal da cruz e arrematavam um “valei-me!”. Ao fim da tarde e já cansado de atender a tantas pessoas, concluía as atividades diárias com o pedido costumeiro, quando era finalmente conduzido em sua cadeira de rodas e deixado diante da TV. Um dia, sem querer justificar-se, mas como se a empreender rara cortesia, esclareceu-me de seu hábito vespertino e da necessidade de manter a cabeça vazia de coisa alguma. Morreria poucos anos depois, consumido por complicações cardíacas.
terça-feira, setembro 28, 2010
De fato, elas não parecem andar, mas se arrastam com o corpo desajeitado a claudicar passos que nem longe distantes daqueles ensaiados na primeira infância. Essas pessoas esqueceram-se belas algum dia e agora se limitam a suportar a existência, carregando consigo o corpo em franca corrupção, rumo à degenerescência infalível. Onde a beleza? Onde o gesto delicado de quem se conhece, cônscio de suas limitações, se bem que ansioso por superá-las. Onde os olhos altivos de ambições ao benigno progresso?
Há tristeza em alguns, preocupação em muitos e nos que restam o olhar vago, volúvel, a que se costuma atribuir alegria.
Penso no belo, ainda que simples, radiante. Pois é tal estado ou vibração radiosa que denuncia a genuína beleza. Por mais feia que a criatura pareça aos olhos corrompidos pela miopia vulgar, aquela intimamente conciliada e, portanto, em harmonia consigo mesma, irradia algo de arrebatador aos experimentados na observação humana, surpreendendo-os confusos e extasiados diante do aparentemente insondável.

quinta-feira, setembro 23, 2010
Oração: que Miles Davis e Dizzy Gillespie estejam entre os anjos do apocalipse.
quarta-feira, setembro 15, 2010
segunda-feira, setembro 06, 2010
sábado, agosto 28, 2010
segunda-feira, agosto 23, 2010
domingo, agosto 22, 2010
domingo, agosto 15, 2010
Shakespeare: o mundo é um palco: uma biografia, Cia. das Letras, de Bill Bryson, é, antes, uma esforçada crônica da Inglaterra elisabetana que um tratado biográfico. O próprio autor em vários momentos parece se escusar pela empresa modesta, quando alega, por exemplo, a escassez de documentos que auxiliem a elucidação da vida do poeta. De tal modo, há um vasto número de curiosas observações de natureza histórica que, aliadas a outras tantas conjecturas, ajudam a tecer o contexto em que Shakespeare vivia, sem, contudo, desvendar sua intimidade.
Ficamos sabendo dos excessos a que eram submetidos os estudantes londrinos, que tinham que decorar as mais de 150 maneiras diferentes de se dizer “obrigado por sua carta”, em latim. Conhecemos as excêntricas golas picadilly, a dieta de pão preto e queijo seguida pela frugalidade inglesa do século XVII, ou, ainda, do bizarro clareamento de pele provocado pelo composto de enxofre e chumbo que as mulheres passavam no corpo como medida de embelezamento. Enfim, é mais um livro de cansativas especulações, como, aliás, qualquer outra obra que pretenda discorrer sobre a vida do bardo, quem parece haver, premeditadamente(!), cuidado de se preservar da posteridade implacável. Quem sabe...? Seja como for, ficamos com o melhor, e o que diz ao artista, sem dúvida, é sua arte.
sexta-feira, agosto 13, 2010
Bill Evans (piano), Eddie Gomez (contrabaixo) e Alex Riel (bateria).
Quem já teve a oportunidade de assistir a performance de um conjunto jazzístico, talvez também haja observado a satisfação que parece fluir de cada músico que, nesse caso, deixa de lado a máscara austera das orquestras de ofício, para se dedicarem de alma a um prazer, ainda que tão intimamente sentido, contagiante.
Se a verdade é atributo da música, começaria a identificá-la no trio de jazz, por exemplo, pois que seu bom desempenho não prescinde da cumplicidade avessa à dissimulação comezinha.
Não se iludam os precipitados que torcem o bico à eventual audição do jazz, pois é música que não vai ao coração sem antes passar (e repassar) pelo cérebro.
domingo, agosto 08, 2010
Justificam alguns a inapetência pela leitura, arrimados no utilitarismo simplório, numa atitude estranha aos fins mais genuínos que a arte inspira, atinentes ao burilamento íntimo de quem a experimenta. Assim, negam-se a ler qualquer linha os cobiçosos de lucros intangíveis, servindo-se de medidas impraticáveis à aferição das virtudes conquistadas que não se confundem com os adornos ou as contingências.A leitura é exercício que atende ao desejo, ainda que irrefletido, do conhecimento de si mesmo. Cada personagem elaborado pelo autor preferido é ser cujos aspectos são passíveis de identidade, de modo a expressar, dos gestos ao pensamento, características peculiares a cada leitor que se reconhece na personalidade ficcional. Assim, o hábito de ler, a que se dedica sem esforço o leitor contumaz, é exame silente de sua (do leitor) própria personalidade, decifrada ao longo do fluxo narrativo, o que projeta a leitura habitual do modesto contexto das atividades lúdicas ao excepcional universo dos recursos emuladores do progresso humano.
quarta-feira, agosto 04, 2010
Em um filme, pouco importa a história, contanto quem a narre o faça sob os auspícios da melhor arte. Esta confiará ao artista comprometido os recessos da beleza, corolário do ato criador, cuja obra ignora o tempo, atravessando-o incólume, qual verdade imorredoura.
domingo, agosto 01, 2010
quarta-feira, julho 28, 2010

Ontem mesmo, fui à locadora, sim, ainda alugo filmes, e dentre estes me chegaram às mãos o anglo-australiano Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, e outro, agora francês, Stella, de Sylvie Verheyde. Detive-me por algum minuto e, servindo-me do mencionado critério de valorização do tempo, levei o último. Julguei a melhor escolha e, precipitando um veredicto que dispensa melhor avaliação, calculo insuperável. Stella é uma narrativa sobre descobertas, e aqui sob o prisma extraordinariamente lúcido de uma garota que, aos 11 anos, surpreende com a inteligência de si mesma. Ela se reconhece diferente dos outros – princípio para o autoconhecimento –, preferindo a distância vigilante ao movimento gregário primitivo que remonta das agremiações convencionais aos remotos coacervados. Não que eu acredite seja o homem destinado à solidão, absolutamente, porquanto a entenda qual estágio natural, por mais dorido, que precede a consciência, primeiramente de si, para só então integrar-se ao todo.
Mas voltando à história de descobertas que sempre envolvem escolhas, há algo que chamo a atenção quanto a estas, as escolhas que se impõem com maior ou menor força no curso da existência, e aqui, nas vidas de Stella, e de suas amigas, Gladys e Geneviève. Stella é quem, sem dúvida, experimenta as decisões que precedem as mudanças mais importantes. Filha de pais boêmios e vivendo em cima de um bar na periferia parisiense, tem a oportunidade de estudar em um liceu conceituado, onde faz amizade com Gladys, primeira aluna da classe, filha de intelectuais, leitora de Balzac e de Coqueteau. Gladys, como dizem os mais velhos, estaria de “vida ganha”, haja todos os recursos e circunstâncias favoráveis ao seu progresso. Diversamente, Geneviève, quem, não bastasse a sorte de pais alcoólatras e desempregados, de um irmão aleijado e outra retardada, sofre o anátema infligido pelo preconceito miserável e desumano dos moradores de seu pequeno vilarejo. Entre as duas, Stella a contemplar a glória e a derrota, conquanto ainda não influam em sua infância os juízos que elegem as conveniências ocas em detrimento à afinidade de coeur. E é com a celebração dessa afinidade, dessa sintonia expressa em amizade fiel, que o filme vai encerrando, numa cena de confessa nostalgia, à maneira das reminiscências fundamentais que o tempo tenta, mas não apaga.
segunda-feira, julho 26, 2010
(São Tomás de Aquino)
Adão! Não sobe aí não!
(in Guillaume d`Angleterre)
domingo, julho 25, 2010
sábado, julho 24, 2010
sexta-feira, julho 23, 2010
domingo, julho 18, 2010

terça-feira, outubro 27, 2009
Evolução e artesegunda-feira, outubro 12, 2009
O estranhoLá está ele de braços estendidos e imóvel, tal qual o vi esta manhã. Acredito não tenha mexido um músculo até então, a despeito do sol implacável, o que é impressionante. Aparentemente não sente dor, é o que digo. Outro dia vi um ser consumido pelo fogo quando alvejado por um raio em meio à tempestade que principiava. Não ouvi queixa alguma, senão o crepitar do fogo que o tomou rapidamente, quando, enfim, tombou inerte sob fagulhas quais moscas incandescentes. Acha que exagero? Pois veja você mesmo. Observe: não parece se importar com coisa alguma, a esperar de braços abertos não sei se amistoso ou ameaçador. Hirto e sólido, conquanto o olhar suspenso numa insondável e desolada impressão. Estaria a deliberar o extraordinário? Fosse o olhar menos alheado o diria sorrateiro e até perigoso. Mas por desconhecer, fico com a cautela que de lá me inspira.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Templos são erigidos para arrebanhamento de “vítimas” adeptas à autopiedade, pretensamente protegidas na casa paterna, imunes às misérias que assediam os homens. Faz supor ingênua disposição à crença ancestral que professa o povo escolhido, uma degenerescência das faculdades intelectivas e morais, tributária da arrogância que ilude o mais simplório dos homens.
domingo, janeiro 18, 2009
domingo, maio 04, 2008
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
sábado, dezembro 22, 2007
terça-feira, dezembro 18, 2007
Em O Cavaleiro Inexistente
"– E nosso séquito?
– Terei de considerar igual a mim este escudeiro, Gurdulu, que nem sabe se existe ou não?
– Até ele aprenderá... Nem nós sabíamos que estávamos no mundo... Também a existir se aprende..."
Todos juntos: Branca, Branca, Branca!...Fiiii Bum!
sexta-feira, dezembro 14, 2007
sábado, dezembro 01, 2007
segunda-feira, novembro 19, 2007
quinta-feira, novembro 08, 2007
Durante a primavera, George M., aposentado de 78 anos, gostava de passar as tardes amenas de New Haven avaliando, descalço e apenas de cueca, seu novo porcelanato. Ficava assim todo o tempo a procurar uma reunião de formigas pretas, sobre as quais debruçava toda atenção. Às vezes, parava curioso a dois centímetros dos artrópodes e proferia gravemente Abraããão...! Alegrava-se quando as via atordoadas ao sopro quente e repentino. À noite, sonhava com mariscos.
domingo, novembro 04, 2007

sexta-feira, novembro 02, 2007
segunda-feira, outubro 29, 2007
quinta-feira, outubro 25, 2007
segunda-feira, outubro 22, 2007
Dia seguinte, recaída. Fui assistir ao Tropa de Elite. “Cão quando não vem, manda cem!”, já se fala em minha terra. Não era pra agora, mas, enfim. Assisti.Finalmente! Finalmente, podemos conhecer outra versão dos fatos. Finalmente algo é mostrado além daquele velho discurso monódico e preguiçoso, para o que policial e bandido se digladiam dia e noite num país distante e fictício, mostrado à curiosidade mórbida e transigente da maioria. Já não nutria simpatias por maconheiro e seus derivados, e, assistindo ao filme, que Deus me perdoe, tive ímpetos de virar o incorruptível Capitão Nascimento e distribuir afabilidades a essa pobre gente incompreendida e carente que, no final das contas, é pena, não consegue encontrar nada melhor pra fazer. Catarse. Tomara possamos exportar heróis policiais, à maneira dos norte-americanos, quem sabe. Enlatados, hã. Por que não? Se bem que os gringos podem achar tudo isso muito miserável.
sexta-feira, outubro 19, 2007
quarta-feira, outubro 17, 2007
domingo, outubro 14, 2007
Desde a 5ª vez que te vi, gostei de você. Ainda distante, como sempre distante, mas quem sabia, de algum modo, a observar. Vi teus olhos, estranhei, os vi negros, embora tão clara. Depois as músicas, te vi dançar, sorrir, dançar sorrindo e novamente distante, cansada, a uma mesa. Te vi beber, sorrir, ainda distante, e brinquei com teu nome, nada de mais. Te vi cuidar e, de ter cuidados, exceder, sorrir e o mundo parar. Comer cachorro quente e comentar, à música predileta, sobre o dia prestes a surgir. Desde a 5ª vez, ainda distante e agora a ordenar, vire à esquerda seu tonto! Aprendi o teu nome, memorizei os teus olhos, gravei a tua voz clara como a ensaiar o dia. Vamos ao cinema?
terça-feira, outubro 09, 2007
Dei uma olhada em outros volumes de seus contos que fazem parte do projeto O Bairro e, tanto em O Senhor Brecht como em O Senhor Kraus, fui absorvido de logo pela atmosfera lúdica, fantástica mesmo, que sublima dos textos à maneira de poesia, a nos insinuar algo que, por si só, o texto não comporta. Mas, não são poemas não. Nem prosa poética. Corta essa.
segunda-feira, outubro 08, 2007
Tiens! Todos me recomendaram, “vai lá, assista, você vai adorar...”, e fui, livre de maior cautela e prevenções, fui ao cinecultura assistir ao Paris, Je t’aime. As 18 histórias não contavam, como supunha, as relações de personagens franceses ou estrangeiros com a cidade, mas dramas humanos que, de ordinário, dispensariam qualquer referência espacial. Ah, mas Paris... Tudo bem! Poderia falar dos senões, dos vampiros filme B em “Quartier de la Madelleine”, do empertigado vendedor de cosmético capilar em “Porte de Choisy” - um tanto hermético -, ou da precária tentativa dos idealizadores em estabelecer relação entre os curtas... mas como ignorar a estranha sensação de leveza e mesmo, por que não?, de entusiasmo que se nos assalta ao fim da sessão, oh, onde você estava? Francine, Francine...Francine e seu Thomas flash back a la Corra, Lola, Corra. É, temos medo de atrizes! Ademais, os estrangeiros. Na sua maioria, estrangeiros em terra estranha – não os encare que é perigoso. Aí sim, poucas cidades servem tão bem à condição alienígena que a Paris arredia e ensimesmada, cada vez mais fechada em sua filosofia ranzinza. É medo. Que melhor lugar para se sentir estrangeiro! Que melhor lugar Carol? Carol tão americana com sua pochette cingida às adiposidades abdominais, tão só, tão lúcida. Carol que, finalmente, nos fala, com seu francês sumário, desse amor inexplicável que a cidade inspira. Recomendo.
Com certeza!A certeza é a ignorância do futuro e o esquecimento do passado. É o grito do tolo, o silêncio do sábio. A certeza é a maior das ficções.
sábado, outubro 06, 2007
sábado, novembro 04, 2006
Onde há certeza a dúvida paira disfarçada de súbita alegria. Vi Ângela anoitecer ao meu lado e, por um instante, era muito certo que a amava.
O ar-condicionado do apartamento vizinho vencia o aparente silêncio. Era um som contínuo que suavizava o temor da solidão. Enquanto ali soasse, contínuo, saberia que, bem próximo, alguém jaz.
Ângela jamais me disse amar. Algum receio quis estar entre mim e ela, é verdade, Ângela não deixou. Sufocou-o com hálito de promessa etílica.
Ângela dorme tão bem que assusta. Como alguém pode dormir tão perfeitamente?! Sua respiração é de uma tranqüilidade imune à minha presença, agora, nula.
Deixo Ângela sozinha para que resplandeça. Ângela só, iluminada; nunca vi ninguém assim e agradeço aos céus por ser o último a amá-la.
O ar-condicionado ressoa imenso, embora a distância; e o vizinho será que nos ouve? Lembra-se dele, Ângela? Agora, não mais.
O silêncio da cidade gotejada de carros na avenida. Posso mesmo te escutar por dentro.
O silêncio é a morte, Ângela. Mas você está aqui, ao meu lado, e lá fora os carros... Não estamos sós, percebe?
Descanse em paz, meu amor.




















